O Inimigo Agora é Outro

Era um dia de guerra. Em frente à praça, se reuniram os exércitos. Uns armados de balas de borracha, escudos, sprays e cães. Outros, armados de palavras, de faixas e de um espírito de mudança.
O que se viu foi sangue, foi covardia, foi brutalidade. O exército armado de balas de borracha e bombas avançou, não dando muita escolha ao exército inimigo. Eles gritaram, berraram, imploraram. Choraram.
O saldo foi de muitos de um lado e poucos de outro. Por mais forte que as palavras fossem, elas não eram páreas para as bombas que se viam do outro lado.
Sobrou pra todos. Repórteres, câmeras, assistentes. Mesmo os que não eram parte do exército inimigo, mas que se solidarizaram com sua luta foram também atacadas. As cenas que se veem não deixam dúvidas: o cenário era de guerra.
A casa do Povo, isolada em meio à esta barbárie, chorava. Vendo aqueles que deveriam estar em seus interiores, fazendo valer seu direito de cidadão, sendo massacrados nas ruas em sua frente. A casa do povo se fechou, para o povo. Lá dentro, confabulavam meia dúzia de generais de guerra. Os defensores do exército inimigo apelavam ao bom senso. Os defensores da barbárie se mantiveram impassíveis. E o Paraná inteiro assistia às cenas sem crer no que os olhos insistiam em ver.
No fim o exército vencedor também perdeu. Perdemos todos nós. Perdemos a fé, a crença, a esperança. Perdemos a educação. Na linha de frente do exército inimigo estavam pais, mães, mestres, pedagogos. Pessoas que passaram sua vida em bancos escolares, aprendendo ou ensinando. Deveras, não aprenderam a guerrear, somente a ensinar.
Perdemos nós alunos. Perdemos nós cidadãos. Perdemos nós que acreditamos na Educação como ferramenta pra mudar o mundo. Perdemos todos. Ouso a dizer que não houveram ganhadores.
Ao final do conceituado Tropa de Elite, seu personagem proferiu a célebre frase: "O inimigo agora é outro." Só não imaginei que o inimigo fosse ser a educação.
Dizer que estamos com vergonha é pouco. Estamos com medo. Se os professores assim são tratados, quem irá ensinar para o mundo, que não se tratam assim as pessoas.

Confesso Que te Amei

Confesso que te amei. Amei nossas semelhanças, amei nossas diferenças. Amei seu sorriso, seus conselhos, sua luz. Amei suas qualidades, e confesso, amei também seus defeitos. Eles faziam-me ver que você era igual a mim.

Te fiz de exemplo. Te fiz de modelo. Exagerei, te transformei em herói. Me perdoe, mas meu coração carente de ídolos viu em sua luz, a esperança no fim de um túnel de desilusão. Segui seus passos, segui seus ideais. Confesso, segui também seus erros.

E chorei quando você se foi. Chorei mais por mim do que por você. Chorei porque fui e sou egoísta. Queria mais um colo, mais um sorriso, mais um conselho. Queria até mais uma bronca, desde que você pudesse estar aqui pra aplicá-la.

O peso se torna menor ao saber que você também sabia disso. Pude lhe olhar nos olhos, os meus de criança, os seus de sabedoria, e lhe transmitir com eles o quanto você significava pra mim. Ah, quem me dera ter a oportunidade de fazê-lo mais uma vez. Seria mais efusivo, mais exagerado. Não menos sincero.

Confesso que te amei. E te odiei. Foram poucos segundos, mas te odiei por nos ter abandonado nesse mundo escroto que hoje vivemos. Foram segundos de egoísmo, me perdoe, mas hoje vejo que afinal, o destino foi sábio. Te fez partir, mas deixou a nós para continuar seu caminho.

Você pagou caro por seus erros, por seus vícios. Caro demais. Para alguém de alma tão grandiosa, de coração tão humano, talvez fosse mais justo uma pena mais branda. Mas afinal, o que é justo pra cada um de nós? Se sofreu o que tu sofreste, foi por saberem que seu espírito de guerreiro aguentaria.

Eu só queria mais uma chance, mais um minuto, um churrasco. Uma última festa, uma derradeira cerveja. Um risada inconfundível para lembrar do som da sua voz, uma piada que pudesse ecoar em momentos de tristeza. Uma última carona, um último peteleco, uma última oportunidade.

Como não falar de você, como esquecer, como superar? Parei de me fazer essas perguntas quando percebi que a dor será eterna, as lágrimas recorrentes, o sofrimento presente. O que conforta minha luta é saber que em todo e cada instante que ao seu lado pude estar, demonstrei a ti que você era para mim um presente.

Você foi. Eu fiquei. Porque você? Porque ele? Porque nós? Os porquês de uma vida, que jamais serão respondidos. Afinal, de toda a nossa existência, nossa única certeza é de que ela um dia acabará. E quando acabar, deixaremos aqui tantos outros queridos a fazer as mesmas perguntas que hoje fazemos nós.

Já disse Casagrande certa vez: "Vou jogar meu anel fora. O que fazer com um anel pela metade". Que ele me permita a discordância. Mas guardarei os sinais da nossa aliança para sempre. Ainda que pela metade, eles me lembram todos os dias, de quem eu fui, quem eu sou e de quem eu almejei um dia ser.

Confesso a ti, te amei. Do profundo da alma à superfície do coração. Hoje já não lhe amo mais. Nem menos. Te amarei assim, até o fim. Afinal, obrigado. Talvez esse amor me fez ser forte quando eu queria ser fraco. Me fez ser homem, quando eu queria ser menino. Me fez suportar calado a minha dor, para poder suportar sofrendo a dor de outros.

Enquanto eu viver, você também viverá. Vida longa a nós meu herói. A jornada apenas começou.