Finados - Dia da Hipocrisia


Dia de 02 de Novembro, dia:


da hipocrisia: das pessoas que sequer se lembram de seus mortos, mas que acham que uma flor, uma vela e uma pai-nosso mal rezado em um dia do ano vai ser a solução.



da mentira: dos falsos lamentos em frente à túmulos, das pessoas que agradeceram pela morte daquele "velho, que só atrapalhava", daquela "desgraçada, que não saía da cama", mas que hoje, num ato de nobreza de caráter, derrubam as lágrimas em frente aos túmulos.



da consciência pesada: daqueles que em vida, maltrataram, brigaram, ignoraram seus entes, e hoje choram ao saber que jamais terão outra oportunidade de refazerem uma história.

da demagogia: das pessoas que fizeram de tudo pelo ente querido, dos amores platônicos que nem a morte conseguirá separar, dos melhores filhos que os pais puderam ter.


Lembrar de alguém que se foi apenas hoje, é como o aniversário daquele colega de classe que você mal lembrava o nome, mas que o Facebook te avisa, e você vai lá dar parabéns como se fossem melhores amigos.



Quer uma dica: faça o bem pras pessoas em vida, porque, a vida é bela, porém, curta. Não deixe o tempo passar pra curar suas mágoas e feridas, ame e perdoe sempre.

Santa Maria - Uma Lição

Era pra ser um domingo qualquer, onde jovens acordariam de ressaca pela noite anterior, pessoas estariam limpando o estabelecimento e o dono contaria os lucros de mais uma noite cheia em sua boate. Mas não foi assim.

Santa Maria e o Brasil foram acordados por uma tragédia. Uma tragédia ímpar na história desses país, onde 235 jovens, como eu, muitos universitários, como eu, perderam a vida. Jovens que não vão poder acordar e continuar seus estudos, serem a esperança de seus pais, a salvação das famílias que bancavam seus estudos para que fossem profissionais. Foram trabalhadores da boate, que lutavam na noite pelo pão do dia seguinte. O Brasil perdeu 235 pessoas de uma só vez, em uma única pancada. Que passará, mas deixará cicatriz.

Agora é natural que se busquem culpados. Durante todo o domingo a mídia aqui tentava culpar os seguranças da boate. Culpemos o segurança, é mais fácil. Afinal, existirão milhares de outras boates que continuarão funcionando sem estrutura alguma. Culpemos o segurança, que assim milhares de casas noturnas estarão representando risco por não ter uma saída de emergência. Culpemos o segurança, que assim os órgãos de fiscalização poderão continuar aprovando casas sem condições. Culpemos o segurança, que os donos poderão continuar a colocar 200% da capacidade de sua casa. Culpemos o segurança, que amanhã todos levantam, esquecem o que o aconteceu e vão à primeira boate que lhes apetecer.

Culpemos o segurança, o único que cumpriu o trabalho para o qual foi delegado. Culpemos o segurança, que a vida continua igual. E os 232 colegas que morreram não passarão de dados estatísticos no jornal. Culpemos o segurança. É mais fácil do que ter que reformular todo uma estrutura precária.

Ou não. Vamos repensar. É preciso que se aprenda. Há muita coisa a ser melhorada, tanto em estrutura quanto em fiscalização. Não estou dizendo que os bombeiros, a polícia, secretarias sejam culpados diretamente pelo que aconteceu. Chama-se acidente, pelo motivo de que muitos fatores foram somados para acontecer o que aconteceu. Mas não se pode esconder essa tragédia atrás de algum escândalo político da próxima semana. É preciso mudar, e se for para fechar metade das casas noturnas, que se feche. Eu prefiro ter duas opções ao invés de 10, mas eu não quero acordar e saber que meus amigos morreram sufocados. Santa Maria, assim como Ponta Grossa é uma cidade universitária, e poderia ser eu e meus amigos dentro de uma boate. Essa imagem não me sai da cabeça e sensação que senti naquele momento não esquecerei tão cedo.

Em 300 de Esparta, o Rei Leônidas cita: Lembrem-se de nós. Lembrem-se porque lutamos e porque morremos. Não queremos homenagens, nem poesias ou poemas. Lembrem-se de nós. E é isso que fica. Homenagens são bonitas, mas que se lembre sempre, do porque 235 foram tiradas naquela noite. E que se lute para que nenhuma mãe ligue 104 vezes para o celular do filho, morto.