Rezemos

Rezemos por Paris. Por Mariana. Por Brasília.  Por Damasco.

Rezemos pela criança que morreu na praia. Pela criança que morreu na bomba. Pela criança que morreu na droga. Pela criança que morreu de fome.

Rezemos pelos franceses inocentes que morreram. Pelos sírios inocentes que morreram. E por tantos inocentes que morrem todos os dias.

Rezemos pelos ignorantes. Pelos que competem por uma dor maior. E por aqueles que não respeitam o direito de sofrer pelo que acredito.

Rezemos pelo Rio Doce que morreu sufocado de lama. Pelo Tietê que morreu sufocado de lixo. E por tantos que morreram sufocados pela seca.

Rezemos pelos que não entendem que a dor da mãe síria é a mesma da francesa. Da brasileira . Da minha. Da sua.

Rezemos por aqueles que mudam o mundo a cada compartilhamento. A cada curtida. A cada comentário. A cada aplicativo.

Rezemos pelos terroristas. Pelos estadistas. Pelos políticos. Pelos generais.

Rezemos por paz. Por tolerância. Por respeito. Por compaixão.

Rezemos por liberdade. Por justiça. Por amor.

Rezemos pelos erros deles. Pelos nossos. Pelos que cometemos. Pelos que cometeremos.

Rezemos pra Deus. Rezemos pra Alá. Rezemos pra Jah. Rezemos pra Gohonzo. Pra nossa própria consciência

Rezemos pelas atitudes de bem. Pelos "bons dias" sinceros. Pelos abraços compartilhados. Pelas amizades. Pelos sorrisos.

Rezemos juntos. Rezemos em silêncio. Rezemos com fé.

Apenas rezemos. Por todos nós.

Resenha Social

Prazer,
Já me chamaram de vagabundo, de moiado, de noiado. Vivo à margens, às espreitas, às sombras.

Perambulo pelas ruas, pelas praças, pelas marquises. Salvo o desprezo ao ignorarem meus pedidos por um trocado, ando como um fantasma, sem sequer que notem minha presença. Numa sociedade que busca esconder suas impurezas, sou o retrato cruel da miséria social, que todos fingem não perceber, por não objetarem em ajudar.

Há ainda os que retiram o pouco do que tenho. Queimam minhas roupas, molham minhas cobertas, roubam meus sapatos, espancam o meu corpo. Afinal, quem sou eu? Apenas mais um sem nome, sem rumo e sem esperança qualquer.

Outros tantos me encontram bêbado, drogado e optam por me criticar. Insistem que sou perigoso, que sou bandido. Nesse pré-conceito que estabelecem da minha classe, sofro preconceito calado, humilhado. Não tenho voz, tampouco, tenho vez.

Destruo a minha vida, pois talvez você não entenda aí no seu quarto quentinho, como seria não querer mais viver. Não tenho sonhos, não tenho metas, não tenho medos. A morte, que te assusta, flerta comigo a cada vez que fecho meus olhos em algum jornal ou papelão, pensando que talvez aquela seja a última dessas vezes e que ao partir desse mundo, talvez eu possa encontrar destino melhor.

Lavo um para-brisa, peço uma esmola, cuido de um carro. A cada moeda mais uma queda. Insisto em continuar nesse pesadelo que vivo acordado, ousando pedir a Deus que não esqueça deste filho afastado.

Esqueci de dizer quem sou eu afinal. Sou morador de rua. Ah, e sou ser humano, como você. Tente lembrar-se disso também.




Depressão

As lágrimas rolam pela face,
O coração ferido já não insiste em lutar.
As emoções flutuam,
As certezas ruíram.
O certo virou errado, o avesso virou travesso.
Excesso de pressão?
Depressão!
Talvez não haja saída.
Não! Dizem que de toda regra há exceção.
E onde estaria a minha?
Terei eu também opção?
Ou não?
Anda-se de um lado pro outro,
O sono não vem, nunca vem.
A madrugada torna-se companheira desse pesadelo,
Que se vive acordado.
Acorrentado!
Preso as memórias,
O passado dói,
A mente remói.
No fim do túnel vê-se a luz,
Apenas não se distingue o que é.
Ao menos se tem esperança,
Neste caso particular,
Ter esperança é melhor que nada!

Anjos da Noite

A rua e a madrugada. O frio e O vento. A solidão e o esquecimento. A esperança.
A rua que passamos todos os dias, os lugares cobertos que poucas vezes nos damos conta de sua importância. A madrugada, lenta e morosa, escura e silenciosa. O frio e o vento que cortam, que gelam, que congelam. A realidade de solidão, do esquecimento que as pessoas sofrem. Isso é o que vemos. Que sentimos.

O que temos a oferecer é pouco, em termos materiais, praticamente nada. O que nós podemos fazer, e fazemos com prazer, é levar a esperança.

A rua nos deu maturidade, nos deu crescimento. A rua e seus personagens nos ensinaram mais que os bancos escolares jamais poderão. A cada Anjos, a cada madrugada dedicada a levar atenção àqueles que não tem nada, nos fazem ainda ter esperança na mudança do mundo.


Começamos esse sonho longos tempos atrás. Hoje, com anos e muitas madrugadas na bagagem, a sensação de realização é a mesma daquele primeiro dia. O sentimento é deveras indescritível, e as palavras que poderíamos aqui conceder para tentar explicar, jamais traduziriam o que nosso coração nesse momento sente.


Agora, sentado em uma cama, em frente a essa tela, com olhos fechados e marejados, torno a lembrar daqueles rostos. Rostos humildes, castigados, sofridos. Rostos de seres humanos como eu, como você que agora nos lê, como qualquer de nossos colegas. Qual a diferença entre eles e nós? Nenhuma. O valor que eles possuem é o mesmo que nós possuímos. São pais, mães, filhos, irmãos. Irmão de quem, filho de ninguém. A rua é universal, a rua não tem preconceito. Tampouco nós.
Nessa troca singela, nós oferecemos pão, chocolate quente, cobertas e roupas. Eles nos dão a força, o sorriso, a benção e a lição. Por ademais de todos os erros que possas cometer em nossas vidas, saber que através de suas mãos, de suas atitudes e suas palavras a vida de outras pessoas se tornou - ainda que pouco ou brevemente - melhor, nos torna mais humanos.


Não somos moralistas, hipócritas, melhores do que ninguém. Somos pequenos, jovens, breves e loucos. E que em nossa caminhada nessa vida, buscamos levar dela mais que bens, levar histórias.
Hoje, depois de horas na rua, temos a certeza de cumprir a nossa missão. Missão que nós assumimos por escolha e responsabilidade própria e que levamos a cabo com a certeza de que um sorriso e uma palavra podem mudar caminhos.


Obrigado a todos aqueles que nos ajudaram com pães, leite, chocolate em pó, roupas, cobertas e com o incentivo e a felicidade de reconhecer nosso trabalho.


Nós somos os Anjos da Noite.

Curei-me

Curei-me. Dos sonhos perdidos, dos amores impossíveis, dos planos jogados fora. Curei-me da tristeza permanente, do peso de ser eu mesmo, das lágrimas recorrentes.

Libertei-me. Dos preconceitos baratos, das pessoas inúteis, da cegueira social. Libertei-me das morais sem moral, da fé sem crença, da dor sem motivo.

Superei os julgamentos, as acusações. Superei a falta de amor a si mesmo, a falta de amor aos demais. Superei o egoísmo, o egocentrismo, o irrealismo.

Quem há de conhecer os destinos de um homem, senão, ele mesmo e dentro da sua mente?  Descobri ainda que a vida nos dá o bom e o ruim, o certo e o errado, o sim e o não. Mas, aliás, seu certo é o meu certo? Meu certo é o seu errado?

Me tornei mais leve, mais feliz, mais calmo, mais eu. Parei de me culpar por ser quem sou, e pior, por não ser aquilo que achavam que eu deveria ser. Sou eu, sou então, livre. Livre pra sorrir, pra chorar, pra cair, pra levantar. Livre pra viver, pra agir, pra pensar. Livre pra lutar.

A sociedade não é bonita, nem justa, nem altruísta. Porém, cada um de nós carrega dentro de si a possibilidade de mudar. Me vi diferente. Comecei a ver as flores, as estrelas, a chorar com a lua e sorrir com o sol.

Do morador de rua ao executivo, do negro ao branco, da criança ao velho. Aprendi a aprender. Seja sobre negócios, sobre preconceitos, sobre brincadeiras ou sobre vida. Aprendi que a vida nos dá professores, mesmo que eles estejam ainda disfarçados.

E então dia a dia eu me tornei melhor. Melhor pra mim, melhor pros outros, melhor pro mundo. Hoje erro com liberdade pra acertar, caio com a certeza do levantar, choro com a ciência de sorrir.
A luta sem fim é recompensada pela esperança a cada conversa. O sonho impossível de tornar o mundo um lugar melhor é possibilitado a cada momento que alguém mostra o quão belas pequenas coisas podem ser. Eu continuarei com ele, pelos que morreram sonhando, e pelos que nascerão dessa esperança.


Curei-me, libertei-me, superei. Fiz dos meus demônios, aliados. Fiz dos erros, aprendizados. Fiz dos problemas, crescimento. E hoje sorrio pra vida com a certeza de que de alguma forma, ela está me sorrindo de volta.

O Inimigo Agora é Outro

Era um dia de guerra. Em frente à praça, se reuniram os exércitos. Uns armados de balas de borracha, escudos, sprays e cães. Outros, armados de palavras, de faixas e de um espírito de mudança.
O que se viu foi sangue, foi covardia, foi brutalidade. O exército armado de balas de borracha e bombas avançou, não dando muita escolha ao exército inimigo. Eles gritaram, berraram, imploraram. Choraram.
O saldo foi de muitos de um lado e poucos de outro. Por mais forte que as palavras fossem, elas não eram páreas para as bombas que se viam do outro lado.
Sobrou pra todos. Repórteres, câmeras, assistentes. Mesmo os que não eram parte do exército inimigo, mas que se solidarizaram com sua luta foram também atacadas. As cenas que se veem não deixam dúvidas: o cenário era de guerra.
A casa do Povo, isolada em meio à esta barbárie, chorava. Vendo aqueles que deveriam estar em seus interiores, fazendo valer seu direito de cidadão, sendo massacrados nas ruas em sua frente. A casa do povo se fechou, para o povo. Lá dentro, confabulavam meia dúzia de generais de guerra. Os defensores do exército inimigo apelavam ao bom senso. Os defensores da barbárie se mantiveram impassíveis. E o Paraná inteiro assistia às cenas sem crer no que os olhos insistiam em ver.
No fim o exército vencedor também perdeu. Perdemos todos nós. Perdemos a fé, a crença, a esperança. Perdemos a educação. Na linha de frente do exército inimigo estavam pais, mães, mestres, pedagogos. Pessoas que passaram sua vida em bancos escolares, aprendendo ou ensinando. Deveras, não aprenderam a guerrear, somente a ensinar.
Perdemos nós alunos. Perdemos nós cidadãos. Perdemos nós que acreditamos na Educação como ferramenta pra mudar o mundo. Perdemos todos. Ouso a dizer que não houveram ganhadores.
Ao final do conceituado Tropa de Elite, seu personagem proferiu a célebre frase: "O inimigo agora é outro." Só não imaginei que o inimigo fosse ser a educação.
Dizer que estamos com vergonha é pouco. Estamos com medo. Se os professores assim são tratados, quem irá ensinar para o mundo, que não se tratam assim as pessoas.

Confesso Que te Amei

Confesso que te amei. Amei nossas semelhanças, amei nossas diferenças. Amei seu sorriso, seus conselhos, sua luz. Amei suas qualidades, e confesso, amei também seus defeitos. Eles faziam-me ver que você era igual a mim.

Te fiz de exemplo. Te fiz de modelo. Exagerei, te transformei em herói. Me perdoe, mas meu coração carente de ídolos viu em sua luz, a esperança no fim de um túnel de desilusão. Segui seus passos, segui seus ideais. Confesso, segui também seus erros.

E chorei quando você se foi. Chorei mais por mim do que por você. Chorei porque fui e sou egoísta. Queria mais um colo, mais um sorriso, mais um conselho. Queria até mais uma bronca, desde que você pudesse estar aqui pra aplicá-la.

O peso se torna menor ao saber que você também sabia disso. Pude lhe olhar nos olhos, os meus de criança, os seus de sabedoria, e lhe transmitir com eles o quanto você significava pra mim. Ah, quem me dera ter a oportunidade de fazê-lo mais uma vez. Seria mais efusivo, mais exagerado. Não menos sincero.

Confesso que te amei. E te odiei. Foram poucos segundos, mas te odiei por nos ter abandonado nesse mundo escroto que hoje vivemos. Foram segundos de egoísmo, me perdoe, mas hoje vejo que afinal, o destino foi sábio. Te fez partir, mas deixou a nós para continuar seu caminho.

Você pagou caro por seus erros, por seus vícios. Caro demais. Para alguém de alma tão grandiosa, de coração tão humano, talvez fosse mais justo uma pena mais branda. Mas afinal, o que é justo pra cada um de nós? Se sofreu o que tu sofreste, foi por saberem que seu espírito de guerreiro aguentaria.

Eu só queria mais uma chance, mais um minuto, um churrasco. Uma última festa, uma derradeira cerveja. Um risada inconfundível para lembrar do som da sua voz, uma piada que pudesse ecoar em momentos de tristeza. Uma última carona, um último peteleco, uma última oportunidade.

Como não falar de você, como esquecer, como superar? Parei de me fazer essas perguntas quando percebi que a dor será eterna, as lágrimas recorrentes, o sofrimento presente. O que conforta minha luta é saber que em todo e cada instante que ao seu lado pude estar, demonstrei a ti que você era para mim um presente.

Você foi. Eu fiquei. Porque você? Porque ele? Porque nós? Os porquês de uma vida, que jamais serão respondidos. Afinal, de toda a nossa existência, nossa única certeza é de que ela um dia acabará. E quando acabar, deixaremos aqui tantos outros queridos a fazer as mesmas perguntas que hoje fazemos nós.

Já disse Casagrande certa vez: "Vou jogar meu anel fora. O que fazer com um anel pela metade". Que ele me permita a discordância. Mas guardarei os sinais da nossa aliança para sempre. Ainda que pela metade, eles me lembram todos os dias, de quem eu fui, quem eu sou e de quem eu almejei um dia ser.

Confesso a ti, te amei. Do profundo da alma à superfície do coração. Hoje já não lhe amo mais. Nem menos. Te amarei assim, até o fim. Afinal, obrigado. Talvez esse amor me fez ser forte quando eu queria ser fraco. Me fez ser homem, quando eu queria ser menino. Me fez suportar calado a minha dor, para poder suportar sofrendo a dor de outros.

Enquanto eu viver, você também viverá. Vida longa a nós meu herói. A jornada apenas começou.

Alex e o Futebol Moderno

A diretoria do Palmeiras resolveu prestar uma homenagem, justíssima, a um dos maiores que vi jogar, o mítico camisa 10 Alex. Para essa homenagem, resolveram montar o time dos "Amigos do Alex" contra o Palmeiras de 1999. Assistir a essa partida e não chorar de tristeza é difícil.

Pontuo aqui alguns motivos da minha tristeza. Primeiro, a péssima qualidade de todas as reportagens que li. Em algum momento no mundo, a crônica do futebol se perdeu e ficou um treco chato e técnico. Crônica tem que ter emoção, tem que ter a lágrima intrínseca do jornalista/cronista em cada palavra. Se quisesse matéria, lia o jornal. Foi tudo resumidinho, certinho, ajeitadinho. Faltou raça nas palavras. Segundo e mais fundamental, foi o jogo em si. Quantos times podem ter em suas fileiras num jogo de despedida: Paulo Nunes, Evair, Edmundo, da Guia, Marcão, Zinho, entre outros, poucos, pouquíssimos. Em se tratando dos últimos 20 anos então, pior ainda.

Foi uma festa. Pra quem jogou e pra quem assistiu. Lances como o calcanhar do Aristzábal, a patada do Alex na gaveta, aquele lançamento do Evair pro Edmundo. A tristeza desse momento foi pensar que em 80% dos times da Série A do Brasileirão, você não tem um meia e um atacante que executariam a mesma jogada com tamanha competência. Em qual time do Brasil hoje, você tem um camisa 10 da qualidade do Alex (mesmo com 40 anos). E pra finalizar, o maior saudosismo de todos, que atacante do Brasil hoje tem competência (soma-se técnica e coragem) de bater um Penalty de trivela. O A. da Guia meteu. Com classe, com qualidade, com 73 anos!

O futebol brasileiro morreu. Ou dormiu. Ou se mudou. Trouxeram este tal de futebol moderno, cheio de conceitos, de táticas e técnicas. Forma física, massa muscular, desgaste. Fisioterapeuta, fisiologista, preparador. Todos os supracitados são peças fundamentais, porém, em algum espaço tem de entrar a qualidade, o algo a mais, o diferente.

Perdemos nosso drible, nossa técnica, nossa ginga, nosso futebol. Num país que fez Garrincha, que fez Zico, não se pode acreditar que o talento tenha acabado. Cada vez mais se exige força, ao invés de cérebro. Não digo aqui para termos 11 "Sócrates" em campo, mas é preciso que pelo menos um em onze saiba quebrar uma defesa.

Assisti  à despedida do Alex com tristeza. Não pela despedida de um ídolo, de um craque, de um diferenciado. Mas por pensar que daqui a 30 anos, na despedida de qualquer de nossos garotos, as estrelas da companhia serão quem? Vi Alex, vi Marcos, vi Edmundo Animal, vi Romário, vi Ronaldo, vi Marcelinho. E vejo cada vez menos. Até quando duraremos? Até quando as 05 Estrelas no peito serão ostentadas apenas em cores verde-amarela.

O futebol brasileiro se perdeu. Se transformou. Se brutamontalizou. Menos dados, mais almas. Menos estatísticas, mais bola. Menos físico, mais técnico. Menos Cocito's, mais Alex's. Antes que seja tarde demais, tragam nosso futebol de volta.

Parabéns Alex, pela carreira, pelo caráter. Você foi dos maiores. Pena não ter sido Alvinegro!