Santa Maria - Uma Lição

Era pra ser um domingo qualquer, onde jovens acordariam de ressaca pela noite anterior, pessoas estariam limpando o estabelecimento e o dono contaria os lucros de mais uma noite cheia em sua boate. Mas não foi assim.

Santa Maria e o Brasil foram acordados por uma tragédia. Uma tragédia ímpar na história desses país, onde 235 jovens, como eu, muitos universitários, como eu, perderam a vida. Jovens que não vão poder acordar e continuar seus estudos, serem a esperança de seus pais, a salvação das famílias que bancavam seus estudos para que fossem profissionais. Foram trabalhadores da boate, que lutavam na noite pelo pão do dia seguinte. O Brasil perdeu 235 pessoas de uma só vez, em uma única pancada. Que passará, mas deixará cicatriz.

Agora é natural que se busquem culpados. Durante todo o domingo a mídia aqui tentava culpar os seguranças da boate. Culpemos o segurança, é mais fácil. Afinal, existirão milhares de outras boates que continuarão funcionando sem estrutura alguma. Culpemos o segurança, que assim milhares de casas noturnas estarão representando risco por não ter uma saída de emergência. Culpemos o segurança, que assim os órgãos de fiscalização poderão continuar aprovando casas sem condições. Culpemos o segurança, que os donos poderão continuar a colocar 200% da capacidade de sua casa. Culpemos o segurança, que amanhã todos levantam, esquecem o que o aconteceu e vão à primeira boate que lhes apetecer.

Culpemos o segurança, o único que cumpriu o trabalho para o qual foi delegado. Culpemos o segurança, que a vida continua igual. E os 232 colegas que morreram não passarão de dados estatísticos no jornal. Culpemos o segurança. É mais fácil do que ter que reformular todo uma estrutura precária.

Ou não. Vamos repensar. É preciso que se aprenda. Há muita coisa a ser melhorada, tanto em estrutura quanto em fiscalização. Não estou dizendo que os bombeiros, a polícia, secretarias sejam culpados diretamente pelo que aconteceu. Chama-se acidente, pelo motivo de que muitos fatores foram somados para acontecer o que aconteceu. Mas não se pode esconder essa tragédia atrás de algum escândalo político da próxima semana. É preciso mudar, e se for para fechar metade das casas noturnas, que se feche. Eu prefiro ter duas opções ao invés de 10, mas eu não quero acordar e saber que meus amigos morreram sufocados. Santa Maria, assim como Ponta Grossa é uma cidade universitária, e poderia ser eu e meus amigos dentro de uma boate. Essa imagem não me sai da cabeça e sensação que senti naquele momento não esquecerei tão cedo.

Em 300 de Esparta, o Rei Leônidas cita: Lembrem-se de nós. Lembrem-se porque lutamos e porque morremos. Não queremos homenagens, nem poesias ou poemas. Lembrem-se de nós. E é isso que fica. Homenagens são bonitas, mas que se lembre sempre, do porque 235 foram tiradas naquela noite. E que se lute para que nenhuma mãe ligue 104 vezes para o celular do filho, morto.

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