Prazer,
Já me chamaram de vagabundo, de moiado, de noiado. Vivo à margens, às espreitas, às sombras.
Perambulo pelas ruas, pelas praças, pelas marquises. Salvo o desprezo ao ignorarem meus pedidos por um trocado, ando como um fantasma, sem sequer que notem minha presença. Numa sociedade que busca esconder suas impurezas, sou o retrato cruel da miséria social, que todos fingem não perceber, por não objetarem em ajudar.
Há ainda os que retiram o pouco do que tenho. Queimam minhas roupas, molham minhas cobertas, roubam meus sapatos, espancam o meu corpo. Afinal, quem sou eu? Apenas mais um sem nome, sem rumo e sem esperança qualquer.
Outros tantos me encontram bêbado, drogado e optam por me criticar. Insistem que sou perigoso, que sou bandido. Nesse pré-conceito que estabelecem da minha classe, sofro preconceito calado, humilhado. Não tenho voz, tampouco, tenho vez.
Destruo a minha vida, pois talvez você não entenda aí no seu quarto quentinho, como seria não querer mais viver. Não tenho sonhos, não tenho metas, não tenho medos. A morte, que te assusta, flerta comigo a cada vez que fecho meus olhos em algum jornal ou papelão, pensando que talvez aquela seja a última dessas vezes e que ao partir desse mundo, talvez eu possa encontrar destino melhor.
Lavo um para-brisa, peço uma esmola, cuido de um carro. A cada moeda mais uma queda. Insisto em continuar nesse pesadelo que vivo acordado, ousando pedir a Deus que não esqueça deste filho afastado.
Esqueci de dizer quem sou eu afinal. Sou morador de rua. Ah, e sou ser humano, como você. Tente lembrar-se disso também.
Nenhum comentário:
Postar um comentário